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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Bráulio de Castro, o compositor de todos os ritmos


A conteúdo que segue foi publicado originalmente no excelente blog www.geleiageneral.blogspot.com.br, e trata mais uma vez do compositor Pernambucano Bráulio de Castro.

BRÁULIO DE CASTRO, O COMPOSITOR DE TODOS OS RITMOS

Abílio Neto

Quem examina a obra de Bráulio de Castro é forçado a reconhecer que está diante de um grande criador. O homem compõe em praticamente todos os ritmos do que se chama música nordestina, mas o que ele faz mesmo e bem, é criar música brasileira. Sou contra o uso desse rótulo "música regional" que inventaram porque a MPB abrigou todos os ritmos no seu vasto manto.

Como ele não tem um perfil daqueles que a prefeitura do Recife enquadra no seu carnaval multicultural, suas músicas e seus intérpretes ficam de fora da festa oficial momesca da Mauricéia. Mas o esquecimento geral da sua obra não se limita apenas aos palcos oficiais porque se dá também no Galo da Madrugada, nas prévias dos blocos e nas ruas do Recife e Olinda, o que é lamentável.

Esse pernambucano de Bom Jardim, conterrâneo de Levino Ferreira, nascido em 18/08/42, cujo nome completo é Bráulio José Gomes de Castro, tem registrada na sua vasta obra, inúmeros frevos (de bloco e frevo-canção) da melhor qualidade musical. Tanto ele quanto o alagoano Jorge Costa chegaram a ser confundidos na década de setenta com compositores ligados ao samba paulista porque residiam em São Paulo.

O seu último álbum de frevo produzido, chamado Pernambucaneando, traz um punhado de excelentes músicas e intérpretes consagrados, alguns solenemente ignorados no tal carnaval multicultural, gente da categoria de um Walmir Chagas ou Bubuska, dignos representantes da cultura pernambucana, porém uniculturais para os donos da festança pública.

A música Pernambucaneando, que foi gravada por Walmir Chagas, deveria até fazer parte desses pacotes caríssimos de divulgação que a prefeitura do Recife junto com o governo de Pernambuco promovem em outros estados porque nenhuma outra sintetiza tão bem o que é o carnaval daqui.

Um homem que na juventude era freqüentador do Pátio do Terço do bairro de São José do Recife, não iria se limitar somente a compor frevos porque foi lá que bebeu na fonte do samba de roda de Pernambuco (tão bom quanto o da Bahia) e também do maracatu vindo dos seguidores de Dona Santa. Daí que, quando se mudou para São Paulo no fim dos anos sessenta, levou na sua bagagem a influência legítima do que era produzido de melhor na música em terras pernambucanas. Os mais de vinte anos que permaneceu na capital paulista foram essenciais para conhecer grandes nomes da música brasileira e com eles desenvolver edificantes parcerias. É bom frisar que o avô paterno de Bráulio foi fundador da Banda de Música Grêmio Lítero Musical Bonjardinense e tocava tuba, bombardino e trompa.

A carreira oficial de Bráulio como artista começaria em 1964 quando gravou pelo Selo Verdi o frevo "Além de mim". Por essa mesma época, Cyro Monteiro gravou o samba "Maria Luiza", de Bráulio e Inaldo Vilarim, outro nome consagrado da música pernambucana, mas quase esquecido.

Bráulio de Castro também tem no seu curriculum musical a participação em diversos festivais: "Festival da Rede Globo", classificando em 3º lugar a música "Cem anos de Monteiro Lobato - Antes Que Acabem As Flores", canção defendida pelo cantor Noite Ilustrada; "Festival da Record", com a música "Recado de Adoniran para Arnesto", interpretada por Fátima de Castro e Demônios da Garoa; e o "Festival Canta Nordeste", classificando em 5º lugar a música "Boi da Alegria", cantada por Ed Carlos.

Em outros festivais do Recife como "Frevança", ganhou o 1º lugar com a música "Maracatu Quilombo" que foi interpretada pela cantora Matilde.

Em cinco edições do "Festival Recifrevo" conseguiu boas colocações: 1º lugar com "Bloco para Getúlio Cavalcanti", com o Coral Recifrevo e 4º lugar com esse coral, desta vez com a música "Moysés, o Menino da Sombrinha" e ainda com o mesmo coral, "Tire a Jangada da Frente".

Em parceria com Fátima de Castro, classificou também no "Recifrevo" a composição de sua autoria intitulada "Descompassado" e ainda no mesmo festival, "Faísca", composta em parceria com Dimas Sedícias e gravada por Nonô Germano.

Dentre suas mais de 330 composições gravadas, boa parte em parcerias, destacam-se "Desafio", com gravações de Alcione e também de Luiz Américo; "Porta é Pra Bater", com Jair Rodrigues; "Bendito Seja", interpretada por Benito de Paula; e quatro sucessos na voz de Genival Lacerda: "O Rádio", "O Disco", "Rock do jegue" e "O gravador".

Outros intérpretes também fizeram sucesso com suas composições, como Wilson Simonal com "Trinta Dinheiros", Nerino Silva com "Tá Vendo", Fafá de Belém com "Meu Bombom", Maria Alcina com "O Aperto", Nando Cordel com "Meu Bombom" (parceria com Bráulio), Alcymar Monteiro, Petrúcio Amorim e Adelmário Coelho com "Feitiço de Mulher", Cristina Amaral e Flávio José com "Eu Sou o Forró", parceria de Bráulio com Petrúcio Amorim, Noite Ilustrada com “Aplauso do Povo”, “Profecia” e “Assombrações do Recife Antigo, Os Demônios da Garoa com “Violão e Viola” e “Véio Mestre”, Germano Mathias com “Por Motivo de Força Maior”, Jackson Antunes com “Vai Devagar, Conceição” e a dupla Guilherme e Gustavo com “Mulher de Amigo Meu”.

Seus sambas "Herói Sou Eu" e "A Malandragem Entrou em Greve" são antológicos e alcançaram muito sucesso na interpretação do conjunto Originais do Samba. Bráulio é o compositor que mais fez músicas em homenagem ao seu time do coração, o Santa Cruz do Recife, dono de uma das maiores torcidas do país. Ele é reverenciado também por isso.

Sobre sua paixão pelo Santa Cruz, vejam o que escreveu Gerrá da Zabumba no blog do Santinha:

“Bráulio é uma figura inquieta. Compõe a todo vapor. Faz música o tempo todo. Os seus amigos já sabem, ligação de Bráulio vai ter uma nova música cantarolada ao telefone. E se o mote for o Santa Cruz, ele compõe brincando, tomando uma na esquina. Foi assim com o hino da Troça Minha Cobra. Estávamos numa calçada em Jardim Atlântico, eu, Alessandra, Chiló e Bráulio, jogando conversa fora e bebericando umas cervejas. Entre um papo e outro comentamos sobre a criação da troça. Bastaram alguns minutos e o hino estava feito. Certa vez, perguntei a ele sobre o disco O Veneno da Cobra Coral. De onde veio a ideia, a inspiração, enfim, como nasceu o Cd. ‘Eu tinha feito dois sambas: Veneza Brasileira, quando ainda residia em São Paulo (foi gravado por Nerino Silva) e O Veneno da Cobra Coral. No inicio da década de dois mil, surgiu a idéia de fazer um CD para o Mais Querido. Chamei Walmir Chagas para fazer a produção musical e pedi algumas músicas para os colegas compositores, que deram o silêncio como resposta. Me arretei e fiz mais oito, coloquei o frevo/hino O Mais Querido, de Mestre Capiba, O Papa Taças, dos Irmãos Valença, e mais uma de Leôncio Rodrigues/ Fernando Neves. Ainda incluí a marcha rancho Papai Tricolor, de Fátima de Castro, e fizemos esse disco’. Para quem não sabe, há muito tempo este Cd está esgotado. Em 2006 houve a tentativa de fazer uma nova tiragem, mas os custos, principalmente com direitos autorais, inviabilizaram a história.”

“A Malandragem Entrou em Greve”, samba debochado de Bráulio com Jorge Belizário, foi feito de encomenda para o cantor pernambucano Bezerra da Silva que seria o intérprete ideal para essa música, já que a irreverência deste samba é a cara do Bezerra, mas infelizmente aconteceu um acidente de percurso e a música foi gravada pelo grupo Os Originais do Samba, um conjunto muito bom que no entanto fez uma interpretação aquém do esperado.

Mas a irreverência do Bráulio se estende a outras músicas: Casa de Corno, Mulher de Amigo Meu, Nêga Tanajura, Zé Vigia, A Mulher do Corno Rico e a do Corno Pobre, Rock do Jegue, Forró Gay, Por Motivo de Força Maior, Vai Devagar Conceição, Vou Virar Calunga, Se Liga Ioiô, Relaxa e Goza, Blocalhau, Guaiamum Treloso, O Pinto da Madrugada, Festa na Válzea, O Cachorro que Lambeu o Seu, Bacia D’água, A Turma da Cirrose, Chifre à Portuguesa, Andando de Coletivo, Frango da Madrugada, Nóis Sofre Mais Nóis Goza, Briga de Barriga, Bola na Rede X Roda de Fogo, Penha-Lapa, Purucutruco, Voltando pra Favela e muitas outras.

Bráulio de Castro tem mais de 50 sambas inéditos, músicas de qualidade indiscutível que ainda não despertaram o interesse dos mais novos grupos de samba do Recife e de outras plagas, talvez pelo desconhecimento do valor dessas obras. São páginas que precisam ser gravadas porque enriquecem o mundo do samba.

Afora isso, produziu maracatus fabulosos como Pátio do Terço e Rainha do Morro, o primeiro gravado por Walmir Chagas e o segundo por Gerlane Lops. Aliás, Walmir Chagas como ele mesmo ou como o Véio Mangaba, é um dos maiores intérpretes da obra de Bráulio de Castro. Bubuska é outro que deu um show na gravação de Fogão, que era só um frevo de rua, mas que ganhou uma letra perfeita de Bráulio.

Todos os ritmos se encontram na obra de Bráulio de Castro: samba, forró, maracatu, frevo-canção, coco, embolada e até música para o pastoril profano. Eu, particularmente, sou um apaixonado pela alegria dos seus frevos e pela simplicidade e beleza dos seus sambas. É a personalidade do mundo da música que escolhi para ser meu patrono na Academia Passa Disco da Música Nordestina. A modéstia dele é uma coisa impressionante: “eu não sou m... nenhuma, só nasci com esse dom de milhares de nordestinos que é compor. Como dizia o velho Lua (Luiz Gonzaga): o Nordeste é um juazeiro carregadinho de compositores”.

Recife/PE, 21/7/2011

Fonte: Overmundo

sábado, 23 de fevereiro de 2013

De Bom Jardim a Olinda, com o Santinha no coração


A entrevista que segue foi gentilmente cedida pelo Professor Clóvis Campêlo e originalmente publicada no excelente blog geleiageneral.blogspot.com.br, nessa semana tive a honra e certamente o privilégio de conhecer pessoalmente o Mestre Bráulio de Castro, assim como o Professor Clóvis que me deu a oportunidade de trazer aos leitores tal conteúdo o mesmo me deu a chance de entrar em contato com o Mestre Bráulio inicialmente pela internet e curioso que sou pelas referencias que li e que ouvi falar, marcamos um encontro na casa do Carnaval no Pátio de São Pedro e teve o privilégio de conhecer esse homem sem dúvidas admirável, conversamos longamente, trocamos ideias, sem dúvidas mais ouvi que falei as muitas histórias, chegando inclusive a dar uma volta nos arredores do Pátio com uma ida ao Mercado de São José onde conheci alguns dos seus amigos e enxerguei ainda mais a grandeza desse Mestre que leva Bom Jardim nas lembranças e no coração, assim como eu a minha Vertentes.

Esequias Pierre Filho




 Fotos: Cida Machado/2011

DE BOM JARDIM A OLINDA, COM O SANTINHA NO CORAÇÃO

Clóvis Campêlo

Confesso que até algum tempo atrás era completamente ignorante em relação a Bráulio de Castro e suas músicas. Quem primeiro me chamou a atenção sobre ele foi Júlio Vila Nova. Depois, no CD “Dez Carnavais”, do Bloco Lírico Cordas e Retalhos, do qual Júlio é o presidente, descubro a música “O mais querido”, uma parceria dele com Fátima de Castro, sua mulher e prima legítima, e também compositora, cantora e instrumentista. É mole?

Mais adiante, nos contatos por mim mantidos para a produção do programa “Trem das Onze”, na Rádio Universitária AM do Recife, Walmir Chagas, o Velho Mangaba, presenteia-me com dois CDs seus, onde constam outras músicas compostas por Bráulio, entre elas o maracatu “Pátio do Terço” e o frevo-canção “Pernambucaneando”, pelas quais me apaixonei. A partir dali, ficou patente para mim todo o talento de Bráulio de Castro.

O melhor, porém, ainda estava por vir. Descubro que, assim como eu, Bráulio também é torcedor do Santa Cruz. Passamos a trocar figurinhas pela internet. Eu, enviando-lhe as matérias postadas no blog “Santa Cruz, a história e a glória”, e ele, comentando o material recebido. Depois de intenso vai-e-vem, proponho-lhe uma entrevista sobre o Santinha. Ele sugere que deixemos a entrevista para depois do jogo com o Treze de Campina Grande, no dia 16 de outubro, quando já teríamos definida a situação do Santa Cruz na Série D do Campeonato Brasileiro. O Santa se classifica para as semifinais da competição, nossos corações se acalmam e marcamos o encontro para o dia 22.

No dia marcado, às 10 horas, conforme o combinado, acompanhado de Cida Machado, chego na sua casa, numa rua aprazível do bairro de Casa Caiada, em Olinda, onde somos recebidos por ele e Fátima.

Para um entrevistador, não existe nada melhor do que um entrevistado falastrão. Descubro que Bráulio é assim. Puxa uma história atrás da outra – e olhe que são muitas! Nem mesmo precisei me utilizar das perguntas que tinha elaborado anteriormente.

Bráulio de Castro nasceu na cidade pernambucana de Bom Jardim, em 1942. Ainda menino, teve um sério problema de saúde que foi curado pelo leite de Francisca do Pezão, pedinte da cidade que lhe serviu de ama-de-leite.

Em 1949, veio para o Recife, acompanhando o avô paterno Ademário Gomes de Castro, indo morar no Largo São Luís, no bairro de Casa Amarela, naquele tempo já com uma grande população. Acostumado à tranqüilidade do interior, seu avô não se habituou com a agitação do lugar e, no ano seguinte, mudou-se para a Rua Ambrósio Machado, no bairro da Iputinga, bairro mais tranqüilo e onde havia muitos torcedores do Santa Cruz. Ilude-se, porém, quem pensa que a sua paixão pelo clube das três cores nasceu ali. Oriundo de uma família tricolor, ele já veio de Bom Jardim com a cabeça feita. Diz que, na verdade, curtiu duas infâncias felizes: no Recife, na casa do avô, tomando banho no rio Capibaribe, e nas férias, em Bom Jardim, onde tomava banho no rio Tracunhaém.

Em 1957, lembra da campanha feita pelo Santa Cruz para a contratação de Aldemar. O povo ia de bonde para a sede do clube, no bairro do Arruda, onde, aos pés de uma bandeira tricolor, depositava a sua contribuição para a contratação do craque. O Santinha formou uma grande equipe e foi supercampeão pernambucano de futebol, naquele ano.

Em 1964, homem feito, Bráulio ocupava o cargo de fiscal do Instituto Brasileiro do Café, quando, em abril, instala-se no País a ditadura militar. Dois meses depois, por conta da sua participação no movimento estudantil, é cassado do cargo que ocupava no IBC. Sem muitas oportunidades de trabalho no Recife, cinco anos depois, em 1969, resolve transferir-se para São Paulo. Chega à Terra da Garoa na mesma época da edição do famigerado Ato Institucional nº 5. Era um tempo difícil, de incertezas e de medos.

Mesmo assim, morou 22 anos em São Paulo, só retornando ao Recife no início dos anos 90. Confessa que chegou na Paulicéia disposto a torcer pelo time do São Paulo, por conta da identificação com as cores do Santa Cruz. Mas logo se apaixonou pelo Corínthias e seu povão. Não teve mais jeito: tornou-se corintiano.

Em São Paulo conviveu com grandes nomes da MPB, como Lupicínio Rodrigues e Adoniran Barbosa, do qual, inclusive, chegou a ser parceiro, dedicando-lhe três composições, duas feitas quando o compositor já era falecido. Vários outros nomes da música popular brasileira também gravaram as suas músicas, como Francisco Petrônio, que gravou a sua composição “Borracha do Tempo”, único samba incluído no seleto repertório do cantor.

Hoje, tranquilamente instalado em Olinda, Bráulio continua compondo e torcendo pelo Santa Cruz. Por conta da hipertensão e com medo da violência das torcidas, dificilmente vai à campo. A sua paixão pelo clube coral, porém, não arrefece. Lançou há poucos dias um CD com quatorze composições, entre frevos, sambas e maracatus, interpretadas por ele mesmo, Fátima de Castro, Bubuska Valença, Walmir Chagas, Chico Nunes e Edy Carlos, dedicadas ao Mais Querido de Pernambuco e em comemoração à conquista do campeonato estadual deste ano. No disco ainda homenageia a Bacalhau de Garanhuns, a quem chama de maior torcedor do mundo.